Feminismo na periferia: referência nacional, grupo criado por sobrevivente rompe ciclos de violência e fortalece mulheres na Amazônia há 40 anos

  • 08/03/2026
(Foto: Reprodução)
Dona Domingas (ao centro, de vestido vermelho), cercada por mulheres do GMB: feminismo periférico que muda o destino de mulheres vítimas de violência GMB Na periferia da Amazônia, histórias de mulheres marcadas pela violência se cruzam em uma rede de apoio criada por uma sobrevivente. Aos 73 anos, Dona Domingas Martins lidera, no bairro Benguí, em Belém, um movimento que há quase 40 anos reúne moradoras da comunidade para enfrentar a violência doméstica e construir caminhos de autonomia e dignidade, rompendo ciclos de abuso que muitas vezes atravessam gerações. “Sofri violência desde os oito anos de idade. Violência doméstica, sexual, todo tipo de violência que você possa imaginar. Fui ficando adulta e me aproximando das lutas. Fugi do meu marido e comecei a morar no Benguí”, relata Domingas. Esse movimento tem nome: Grupo de Mulheres Brasileiras (GMB). Criado no Benguí nos anos 1980, o coletivo reúne mulheres da periferia para discutir direitos, enfrentar a violência de gênero e desenvolver iniciativas de formação política e geração de renda. “O grupo surgiu da minha história de vida. Mantive na minha cabeça que eu não queria que nenhuma outra mulher passasse pelo que eu passei”, diz. Fundadora do GMB, Dona Domingas Martins partipa da Marcha das Mulheres em Belém Veja também: Dia da Mulher é marcado por ato em Belém pedindo fim da violência ✅ Clique e siga o canal do g1 Pará no WhatsApp Veja mais notícias do estado no g1 Pará Feminismo que nasce do território Mulher preta, casada ainda jovem e mãe cedo, Domingas cresceu sem acesso à formação formal — trajetória que reflete a realidade de muitas mulheres no Pará. Domingas Martins, fundadora do Grupo de Mulheres Brasileiras, na Marcha das Mulheres em Belém Gil Sóter/g1 Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 80% das mulheres do Pará são negras — pardas e pretas. No mercado de trabalho, mais da metade está na informalidade, concentrada principalmente em atividades como comércio de rua, trabalho doméstico e pequenos serviços. A responsabilidade pelo sustento da casa também recai com frequência sobre elas. No Norte do país, mais de 40% dos domicílios são chefiados por mulheres, segundo dados da PNAD Contínua. Esse retrato social também se conecta ao território onde Domingas construiu sua trajetória. Na Região Metropolitana de Belém, mais da metade da população vive em favelas ou comunidades urbanas, segundo o Censo 2022 do IBGE. É nesse cenário que iniciativas comunitárias de organização feminina ganham relevância particular. Domingas Martins, fundadora do Grupo de Mulheres Brasileiras GMB Como nasceu o grupo A jornada começou na década de 1980, quando Domingas, fugindo de um casamento abusivo, foi morar no Benguí. Lá conheceu outras mulheres e começou a organizar pequenos encontros e eventos na vizinhança, inicialmente durante o período de Natal. Com a proximidade, elas perceberam que poderiam atuar juntas para enfrentar problemas que se repetiam na comunidade. “Você imagina que naquela época era super difícil mobilizar para esse tipo de debate. Os maridos e os namorados não deixavam as mulheres virem ao encontro”, lembra. Para contornar a resistência, o grupo encontrou estratégias. “Começamos a promover cursos profissionalizantes. Nessas oportunidades, fazíamos também as rodas de debate”, conta Domingas. Em 1986, o grupo se formalizou. “A partir daí começamos a fazer pesquisas para entender as mulheres do Benguí. Conhecemos histórias de assédio em casa, no trabalho. Descobrimos que muitas sofriam de depressão”, diz. O que faz o GMB Roda de debate reúne moradores do Benguí para falar de violência doméstica e fim do ciclo de opressão GMB Hoje o GMB atua em três frentes principais: saúde da mulher, combate à violência de gênero e geração de renda. Pensando na autonomia econômica das participantes, o grupo criou o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), que oferece cursos profissionalizantes e incentiva a produção de artesanato, como biojoias feitas com caroço de açaí. As mulheres também produzem bolsas, camisetas e bonecas. “Ter renda própria muda muita coisa. Sem emprego, muitas mulheres ficam com o marido agressor, vivem apanhando. Tendo sua renda, elas têm condições de romper esse ciclo”, explica Domingas. Além das iniciativas de formação e trabalho, o grupo também promove rodas de conversa e oferece atendimento psicológico gratuito às mulheres da comunidade. Os encontros acontecem quinzenalmente com uma terapeuta voluntária, também moradora do Benguí. “Buscamos a nossa cura com a escuta coletiva”, diz Domingas. Outra iniciativa em desenvolvimento é uma horta comunitária com ervas medicinais que serão distribuídas gratuitamente. Corpo político Ao longo dos anos, o movimento ultrapassou os limites do bairro. Hoje o GMB participa do Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense e também integra articulações nacionais pelos direitos das mulheres, como o Fórum de Mulheres do Brasil e a Frente Feminista. “Tudo isso para que essa luta das mulheres não seja fragmentada”, afirma Domingas. “As mulheres precisam ocupar espaços de poder, espaços de liderança. Só assim iremos avançar.” Mesmo assim, ela reconhece que muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para participar da vida política. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as mulheres trabalham, em média, sete horas e meia a mais por semana que os homens quando se somam o trabalho remunerado e as tarefas domésticas. “A rotina afasta as mulheres da política porque muitas são mãe e pai ao mesmo tempo. Elas têm que se ocupar de sobreviver”, diz. GMB atua no empoderamento político de moradoras da periferia da RMB e apoia diversos grupos de mulheres pelo Pará GMB A força da união feminina Quase quatro décadas depois da criação do grupo, Domingas vê na trajetória do GMB a prova de que a união entre mulheres pode transformar vidas. “Eu olho para trás e não tenho tristeza. Houve momentos em que estive no fundo do poço e consegui sair”, afirma. Para ela, o trabalho desenvolvido no Benguí mostra que a organização coletiva pode abrir novos caminhos para mulheres que enfrentam violência e desigualdade. “Eu digo sempre para elas: não estou falando do que eu li ou vi. Estou falando do que eu vivi”, diz. “E todas essas conquistas mostram que a gente consegue, que somos capazes, desde que estejamos juntas. Juntas, somos muito fortes e grandes.” VÍDEOS: veja todas as notícias do Pará

FONTE: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/03/08/feminismo-na-periferia-como-um-grupo-criado-por-sobrevivente-rompe-ciclos-de-violencia-e-fortalece-mulheres-na-amazonia-ha-40-anos.ghtml


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