Cultura, moda e floresta em pé: Economia criativa gera quase 7 vezes mais retorno para cada R$ 1 investido e movimenta renda na Amazônia

  • 29/05/2026
(Foto: Reprodução)
Biojoias são o carro-chefe da Da Tribu: feitas de biomateriais, as criações de Kátia Fagundes são vendidas em todo o Brasil e para o exterior Lula Fonseca Enquanto o Pará segue entre os estados brasileiros com maiores índices de desmatamento e emissões de gases de efeito estufa do país, iniciativas ligadas à cultura, à moda sustentável e aos saberes tradicionais vêm apontando caminhos de geração de renda baseados na floresta em pé. Em diferentes territórios paraenses, artistas ribeirinhos, mulheres extrativistas e empreendedores indígenas têm transformado conhecimentos ancestrais em trabalho, renda e preservação cultural. Dados divulgados pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostram que o Pará liderou o ranking brasileiro de emissões brutas de gases de efeito estufa em 2024, com cerca de 278 milhões de toneladas de CO₂ equivalente emitidas no período. Grande parte dessas emissões está ligada ao desmatamento e às mudanças no uso da terra. Levantamentos recentes do MapBiomas também apontam que o estado segue entre os mais pressionados pela degradação ambiental e pela perda de vegetação nativa na Amazônia Legal. Nesse cenário, pesquisadores e especialistas vêm defendendo o fortalecimento da economia criativa e da bioeconomia amazônica como alternativas capazes de gerar renda sem ampliar a pressão sobre a floresta. Levantamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) aponta que a economia criativa no Pará gerou um impacto econômico estimado em R$ 1,2 bilhão em 2022, quando foi divulgado o estudo. O valor não se refere ao faturamento direto do setor, mas ao efeito multiplicador dos investimentos públicos na área. “O valor não se refere ao faturamento direto do setor, mas ao efeito multiplicador dos investimentos públicos na área, que consideram a capacidade de retorno da atividade na economia local”, explica o levantamento. Segundo o estudo, cada R$ 1 investido em iniciativas da economia criativa gera, em média, R$ 6,51 em impacto econômico. Isso significa que, no período analisado, cerca de R$ 185 milhões em investimentos públicos resultaram em um impacto estimado de R$ 1,2 bilhão na economia paraense. Já o estudo “Nova Economia da Amazônia”, elaborado pelo World Resources Institute (WRI Brasil), defende que manter a floresta em pé não é uma ameaça ao desenvolvimento e aponta atividades ligadas à cultura, ao patrimônio e aos saberes tradicionais como caminhos para um modelo econômico de menor impacto ambiental na região. Arte dos Abridores de letras Instituto Letras que Flutuam Tradição ribeirinha transformada em renda Um dos exemplos é o Instituto Letras que Flutuam, primeiro instituto do Brasil dedicado exclusivamente à cultura dos abridores de letras — mestres responsáveis pelas pinturas e tipografias coloridas presentes nas embarcações amazônicas. Formalizado em 2024 a partir de mais de duas décadas de pesquisa conduzidas pela pesquisadora Fernanda Martins, o instituto já identificou mais de 130 abridores de letras em municípios paraenses como Belém, Abaetetuba, Igarapé-Miri, Barcarena, Soure, Salvaterra, Curralinho e Breves. Além da preservação da memória gráfica das embarcações amazônicas, o projeto atua na geração de renda e no fortalecimento desses mestres ribeirinhos, com oficinas de formação, capacitações em direitos autorais, precificação e economia criativa, além da circulação nacional dos artistas. Em 2025, o projeto “Letras que Navegam – Oficinas de Letras Amazônicas pelo Brasil” percorreu oito capitais brasileiras com oficinas, demonstrações ao vivo e rodas de conversa conduzidas pelos próprios abridores. “Foi o momento em que o abridor de letras ribeirinho falou sem filtro sobre a sua própria realidade. Isso amplia a percepção e o conhecimento sobre a Amazônia e o saber ribeirinho”, afirma Fernanda Martins. Segundo ela, fortalecer economicamente os mestres também ajuda a manter viva a cultura amazônica dentro dos próprios territórios. O abridor de letras Hidaías Freitas trabalha há mais de três décadas pintando embarcações amazônicas ILQF Morador do Rio Pracuba Grande, em São Sebastião da Boa Vista, no Marajó, o abridor de letras Hidaías Freitas trabalha há mais de três décadas pintando embarcações amazônicas. Segundo ele, o reconhecimento profissional mudou a realidade dos mestres ribeirinhos. “Eu posso dizer que nós vivíamos aqui no anonimato, sem o nosso trabalho ser reconhecido. E através do Letras, o nosso trabalho está sendo reconhecido. Não só reconhecido, também como traz uma geração de renda para nós”, afirma. “Hoje, a gente já vende um produto lá fora, com preço mais justo. E com isso, a gente já pode colocar um alimento, uma qualidade melhor na mesa da gente”, diz. Couro ecológico e fios emborrachados criados em parceria com mulheres ribeirinhas dão forma a roupas e acessórios da moda Da Tribu Da Tribu: moda sustentável criada a partir da floresta Outra iniciativa paraense que conecta floresta em pé, geração de renda e economia criativa é a Da Tribu, empresa fundada pelas artesãs Kátia e Tainah Fagundes, que transforma látex amazônico em biomateriais usados na moda sustentável. A produção acontece em parceria com mulheres extrativistas da comunidade Pedra Branca, na Ilha de Cotijuba, em Belém. A partir do látex extraído de seringueiras manejadas de forma sustentável, o grupo desenvolve fios emborrachados, biojoias e couro ecológico usados na produção de roupas, bolsas e acessórios vendidos no Brasil e no exterior. A iniciativa impulsionou uma mudança econômica na comunidade. Com uma tecnologia de beneficiamento do látex desenvolvida para o projeto, a produção passou de cerca de 20 litros a cada três meses para aproximadamente 2 mil litros por trimestre, beneficiando dezenas de famílias ribeirinhas. Kátia e Tainah Fagundes, da empresa Da Tribu Débora Flor A bioeconomia amazônica vem ganhando espaço em setores historicamente associados à poluição e ao alto impacto ambiental, como a moda. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Ellen MacArthur Foundation, a indústria da moda está entre as mais poluentes do planeta. “Tenho total compreensão de que o propósito do nosso negócio é preservar a floresta em pé e fortalecer os recursos que chegam às comunidades, porque a floresta só permanece em pé se houver pessoas que vivam e consigam se sustentar dela”, afirma Tainah Fagundes. Braceletes e colares indígenas Casa Ikeuara Casa Ikeuara: arte indígena e fortalecimento cultural Em Belém, outro exemplo é a Casa Ikeuara da Amazônia, primeira casa de arte, cultura e gastronomia indígena da capital, inaugurada neste mês no bairro do Reduto. Idealizada pela jornalista e ativista indígena Nice Tupinambá, do povo Kamutá Tupinambá do Baixo Tocantins, a casa reúne artesanato, gastronomia, turismo ancestral e produtos criados por diferentes povos indígenas do Pará, Mato Grosso e Amazonas. Nice Tupinambá e Ngrenhkarati Xikrin: empreendedorismo indígena que preserva a cultura ancestral e a floresta Divulgação “A Casa Ikeuara é o espaço que faltava em Belém para contarmos nossa própria história e fortalecermos nossas culturas e identidades. Também é uma forma de gerar renda para diversos povos que vivem da arte e do artesanato”, afirma. Segundo ela, os produtos carregam saberes ancestrais e relações profundas com os territórios amazônicos. “Cada miçanga, cada cor e cada detalhe carrega matéria-prima sustentável, horas de trabalho manual, tradição passada de geração em geração e a força de um território inteiro”, diz. É nesse fluxo de produção e circulação de artesanato indígena que se insere o trabalho de Ngrenhkarati Xikrin, presidenta da Associação Menire Xikrin, que mantém parceria com a Casa Ikeuara. “Nós produzimos grafismos em tecido, fazemos nossa costura e também peças de miçanga, como colares, brincos e pulseiras. Temos uma parceria com a Casa Ikeuara, para onde enviamos nosso artesanato. Levamos nossa arte para o mundo conhecer”, diz. VÍDEOS: veja todas as notícias do Pará

FONTE: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/05/29/cultura-moda-e-floresta-em-pe-economia-criativa-gera-quase-7-vezes-mais-retorno-para-cada-r-1-investido-e-movimenta-renda-na-amazonia.ghtml


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